O desabafo começa salivando
Sobre a folha branca do papel
Havendo um atrito da caneta
Às incongruências do conflito
escrever como salto de rapel
É o engodo da minha vaidade
Fará heroico o ímpio
Para que suas dores passem?
Sei que insanos desabafos
Secam as tintas do tinteiro
O apelo havia excedido
A lisura do bom senso
Perdidos a saliva, o sopro e o bafo
Pelo menos luz acendeu
Desespero da criança na tenra idade
O sentido da vida é saber irracional
Racional a vida é um mal
A renuncia da razão
Complexo como estômago vazio
E todas as fomes do elenco
Nas esgrimas das palavras
Primeiras que esvaíram sem muito explicar
Foram as soluções fáceis
Que foram negado versos
De consolos de falsas compaixão
Porém de resto um amontoado
De escritos como castelo de cartas
Reflexão em prosas poetadas
Num inverno reverso
O leitor em desvantagem
Como se quisesse levar alguma
muitos creem ser verborrágico
Inspirado em Heiner Müller
Antes fosse. Se quer espero Godo
Se algo me leva aos dois expoentes
Reside a eloquente palavra silêncio
Por onde vocifera o poeta
Aliado da minha dor
Escrever para não enlouquecer
O mediador na roda do caos
Ressignifica o nada
Nessas corredeiras Vans
Um confessionário de resenhas
Hora me sinto Artaud
Assassinando Deus
Outrora mergulho em águas salubas
A procura do conselho de Nanã
Tentando me convencer não ser tolo
Ser um Parsifal a procura do Graal
E que de fato existo
Antes que Eu desista de Mim
*
SÉRGIO CUMINO
INVERNO REVERSO


