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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ODE AO DESILUDIDO


 ODE AO DESILUDIDO 

  Foi no fundo da noite 

Que as sombras ardilosas

Permitiu-se conversar 

A noite calada, porém atenta 

Prolixa no silêncio 

Poderia surgir ali 

O que as claras se ofuscam 

Com desleixo da atenção 

Bem no fundo, no canto da desistência 

Clausura das fraquezas 

No leito do vulnerável 

Onde autoridade não se sustenta 

Parece revelar o improvável 

Um fundo vazio cheio de medo 

Onde vocifera o teatro da crueldade 

os insumos que o percurso fermentou

  votos de diamantes com a ilusão 

Últimos invernos à conquista a alma

Diante do conselho dos traumas 

Memória e os dilemas dos becos 

Escreve a carta ao fundo da noite 

As ironias que a idade se presta 

Que aponta para escrito resignado 

Dizem que são memórias póstumas 

De um morto distraído

Aí a questão, qual óbito se refere 

São tantas nessa vida Severina 

Que João Cabral virou poeta 

Quantas a salpicar no verão 

Invernos declinando a depressão 

Porque justo no outono perdeu meta

A tempo não esperava a estação de flores

Morte e castração ou Ode ao desiludido 

O certo que estava em falta com a noite 

Mais complacente que de costume 

Por conta do calor da idade

O rei estava nu.

A carta continha conquistas e saudades 

Mas o pano de fundo no fundo da noite Pra que fui no fundo ,dor

O leito encantado do amor.

*

FRÊMITOS DO ILÊ. SÉRGIO CUMINO 

domingo, 30 de agosto de 2026

MANGEDOURA DE GARANHUNS


MANGEDOURA DE GARANHUNS 

Faz jus a cada página 

Esse inverno intermitente 

Acorda o que a retina pressente 

E um orgulho de longa vista

E toda ordem de arrepios 

Prece aos altares dos sonhos 

A vela ardia na alvorada 

A manjedoura do chão de fábrica 

Útero do coletivo 

A casa de Dona Lindu 

Sob o sol de Caetés*

E o arquétipo da pedra filosofal 

A borracha não apaga Chico Mendes 

E a severidade com a serpente 

Na Divina utopia de Darci Ribeiro 

Que  nesse deserto o acompanha

E o tempo escreve suas fábulas 

A maciez que afaga a terra 

Quando a árvore aprofunda raízes 

A poesia entra na campanha 

Umedecidas pelo São Francisco 

Visão do Paraíso escrito do pai do Chico 

Sindicato e seus suores 

Irmãos de Frei Chico 

Nossa criação, um criador 

Sugere comer do fruto 

Até a vida desfazer dos pretéritos 

E ser rio navegador 

A benção de Aparecida 

A pesca de pescador 

E os afluentes do sincretismo 

foi-se a pele e a sombra 

A serpente sob a Lua 

No devaneio da madrugada 

E as cogerações após as outras 

Nas paróquias e seus entornos 

Desnuda a fé do pecado original 

Ao ninho da semântica 

Quem não pensa sente

Narrativas de fatos e simulacros 

Nas corredeiras de símbolos 

As margens do meio fio 

E batismo de cada barco 

Que a vida respira 

Faz-se a luz e a luz se fez

Sede férteis e multiplicáveis

Com nossos pães e peixes.

*

FRÊMITOS DO ILÊ – SÉRGIO CUMINO  

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

PRETÉRITO MAIS QUE IMPERFEITO


PRETÉRITO MAIS QUE IMPERFEITO 

Tentativa de recompor o pretérito 

Em busca do fio da meada 

inqueria a resolução das dúvidas 

Onde foi o erro, se errei?

Pode ser no freio involuntário do sonho 

Por inalação alheia 

E vestir a carapuça da culpa 

Não haveria condição pequena burguesa 

Que trovejasse contra a boemia pueril 

Havia ali um prazer implícito 

De saborear o devaneio 

Sonho dando pano pra manga

A resistência ao mundo senil

Buscando o estilo da criação 

Nem sempre determinado

Muito menos um passeio 

Os percalços surgiram no curso 

Sem a orientação da previsibilidade 

Aí o improviso perdeu a frequência 

E a vida me deixa a deriva 

Um corpo inerte sem pulso

Dizia Pessoa; viver não é preciso 

Foi a submersão nos conflitos da consciência 

O existencialismo assume a primazia 

Se era carta marcada pelo destino 

Essa encharcou de tão afogada

A boia de salvação 

Foi organizar ilusões em poesia 

O diálogo com a resiliência 

E reacender a lâmpada de azeite 

O amor e o sacerdócio lidera o ranking 

E a vida seguir com deleite 

Ato de fé a preces aladas

Para que o pretérito mais que imperfeito 

Mesmo com mau tempo saia da marina 

Deixa o estado de pedra e avance 

Avarias do coração o fez rarefeito 

E de graça qual seja a sina 

Vejo na noite a graciosa dama

Eloquente diva com seus mistérios 

Cujos enigmas me assanha 

Ser Ermitão com a lamparina.

*

FRÊMITOS DO ILÊ 

SÉRGIO CUMINO  

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

RESILIÊNCIA CALEJADA

 RESILIÊNCIA CALEJADA 

O tempo calejou a resiliência 

Impactos quando véus dissipam

Conforme máscaras não encaixam

Não surpreende mais

Os lamentos ficam obtusos

Aprende-se a superar o luto 

Quando os paradigmas são relações 

Rupturas em estado confuso 

Personagens compunham cenário 

Ou cenário compunha personagens 

São contextos que dissertam enredo 

No ato, capítulo, preâmbulos 

Deixa de ser fato, afeto, engodo 

Rei morto Rei posto, e as cartas desabam

Amargo desgosto;

Ervas que curam as enfermidade da ilusão 

Marcam os clímax shakespearianos

E o “teatro non-sense” de Ionesco 

Isso é clássico, contudo seus complexos 

Em noites sombrias ,

Paixões queimaram como palha

A mesma Maria Fumaça dos tempos de boemia 

Aos poucos fica sem lenha pra queimar 

Quando o destino muda de rota

Tantos amores ficaram na estação da esperança 

Contemplativo no crepúsculo da tarde

Que o horizonte não traz de volta

O tempo é eterno, mas atitudes perdem paradas 

E ainda insistimos em requenta-las 

Um perdido no vácuo do tempo

Quando as vozes emitem lágrimas 

E seus silêncios ecoam gritos

Como apito de um trem mudo

As estações e seus legados

E o sonho deixado conforme inverno 

Nessa dor de poeta viajante 

Compõe e decompõe afetos 

Até a prata dos pelos compor sua face 

Traje de gala, para ouvir 

As resenhas que as rugas contam

As partidas que não voltaram 

Mas partiram corações 

Quantos vagões descarrilhado 

Os demais, serrados, túneis e reflexões 

Movem-se com as saudades 

que a resiliência calejou 

*

INVERNO REVERSO 

SÉRGIO CUMINO  

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

BELDADE LATINA

BELDADE LATINA 

 Se a beleza é de Oxum 

Ela tem coração dourado 

Mais que o encanto de vir ave rara 

Nem o inconsciente chega ao deleite 

Suas pupilas sorriam; quem dera 

Planetas brilhantes 

É a galáxia da ternura 

Parece, não é improvável 

O bom senso saiu de mim

cabelos de imponência Obsidiana

Uniram-se no ombro esquerdo 

Encobre o coração, estima prelúdio 

Atrás das cortinas negras 

Moliére anuncia o primeiro ato

Aferi a percussão da sonata 

Um, dois , três, podia mais

Mas cá dentro acelerou 

O espetáculo já havia começado 

Alegria tímida se nega a acreditar 

Até os sonhos ficaram sem chão 

Sempre aquém do que os olhos veem

Decide criar nova ordem de fé 

A intuição supera probabilidade 

A esperança é a ultima que morre

Ou acabou de adiantar o relógio

A beleza em si é uma sentença 

A qual o admirador se dá a pena 

E tamanha graça apura o despojo 

O desejo fica em estado escusado 

Precaução ao frisson pede 

A onda que o desconcertou deveras 

Se quer tinha um timbre para desejar bom dia 

Se perguntar; porque me olhas?

 Saída, seria improvisar libras

As palavras estavam no vestiário, 

Ou melhor; Dicionário trocando de roupa 

Que rebuscasse a prosódia 

e não perder o caminho de casa

A beleza é simetria 

Mas a belezura, essa é eterna 

É música que se materializa 

Em uma brasilidade Hermosa 

Mais que demais,

a estética da Deusa de Vênus

Cuja imagem remete o Abebê de Oxum 

Mulher das camélias, de olhos celestes

Entreabre a boca carmim 

No centro das pombas brancas

Expira magia do amor. 

Se foi vítima presencial, 

não haverá por onde escapa 

A flecha da paixão é certeira 

*

FRÊMITOS DO ILÊ 

SÉRGIO CUMINO 


terça-feira, 25 de agosto de 2026

SENÃO POETASTRO

  SENÃO POETASTRO 

Há dentro de mim que tudo sabe 

Se quer sei do que se trata

Sincericidio que aqui brada

Frustra parte do cento do leitor 

Tantos protestam com ausência 

Insisto em projetar o oculto

Feito um slide verborrágico 

A culpa toda do autor 

Não há cativos que o responsabilizou

Lá no fundo não encontra Nutella 

E sim um acidente interno bruto 

O desejo surge com alguma pérola 

As palavras fazem buracos fundos 

Escava meu baú de norte sul

De Olorum a meu próprio aye 

Para emergir o óleo 

O sumo da minha presença 

Gratidão aos garimpeiros de poesia 

Que replicam o devaneio das palavras 

Grito meu ativismo que a esquerda não lê 

Os progressistas não visualizam

A brutalidade que grossa o óleo 

Por vezes quase frequentes 

Não passa pelo refino clássico e suas vertentes 

É pornográfico o que apura os olhos 

Nessa encruzilhada entre esquerda e direita 

O estrume semeador da terra cultural 

Tendi ao lado de Exú 

Contra quem afere a mãe terra 

E ao povo marginal 

Comunicador, usa a caneta a ferro e fogo

Onde a explosão é resistência 

Xangô me ensina a poesia do chão de fábrica 

Onde as mãos sujam de graxa 

Anarquismo espanhol e o nagô 

São a forra ancestral 

Sangue preto é a tinta da inspiração 

Já os amigos na biografia poética são afetos 

É a fotografia que a alma tira

Das resenhas a beira mar

Ao quarto sem janelas

Caverna que a alma replica 

O confessionário para o silêncio 

Lágrimas são sílabas sobre Gaza

Cujo o tema é a cultura da paz 

Bará deu a chave da diversidade 

Oxum o axé da arte 

As veia poética não coagula 

Mesmo com cinco tiros

No peito da intolerância 

Caverna ponte de safena cognitiva 

A alquimia da poesia com magia 

Reclusão sobre linhas que desenrolam

Madrugada ar da graça da hora grande

Seja Observatório 803 ou Catador de Resenhas

Às quebradas da chacina de Jaçanã 

Nessa viagem a Olodumaré 

Os conformes e inconformados

Poesia é escrita na folha seca da gameleira 

Forjada pelo raio de Ayrá 

Soprada pelos ventos de Oyá

 A borboleta e a ternura dos versos 

Entre os signos que traduz as saias 

Há alegria da dança de Dandara 

Senão agrada muito 

Pelo menos não estraga 

Deposito à mão, minha consciência 

Diálogo de mim com os contextos 

O leitor um arqueólogo que se encontra 

A jornada do herói com deleites e tropeços 

Só o que tenho a oferecer, delírios e verbos

Louco vagando interage com a estrada 

Dá-se oxigênio a desesperança 

A esse poeta esperando Godo

*

FRÊMITOS DO ILÊ 

SÉRGIO CUMINO 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A MINEIRA O POETA E A CADEIRA


 A MINEIRA O POETA E A CADEIRA 

A alegria da moça 

Levada pelas pernas morenas

Auxiliadora de toda cognição 

Sobe as ladeiras dá Zona da Mata

A Diva da Manchester mineira 

O brinco da carioca do brejo 

Encontro um amor de fora

Logo se viu distante da Fauna e Flora

Goiabada com queijo na sampa paulistana 

As avarias do joelho e tornozelo 

Leva a caminhada ser com a cadeira 

Enaltece os encantos como manteve o zelo

O poeta paulista não perdeu seu cheiro 

as mãos na manopla, escorre aos ombros 

A prosa é a atração intensa

O beijo a surpreende pela nuca

Com direito a sussurros ao ouvido 

Os arrepios se espalham pelo corpo 

O desejo chega aos pés 

Pedintes da massagem tântrica 

As coxas grossas recebem fino trato

Os joelhos abrem o prazer 

Danados que são 

Sedutores como café fresco 

Oferecido no bule

Somos o bolo de milho 

A mineira não é cadeira 

E a cadeira não é a mineira 

Quando assalta o colo do poeta 

É a resenha da fêmea por afeto 

Com suas carícias em libras

Como os corpos declaram o amor 

Misturando-se com as metáforas do toque 

Porque a poesia é silenciosa 

Renuncia a palestra no momento íntimo 

O verso é o suspiro da pupila 

Conjugando todas as malícias 

A vulnerabilidade consensual 

Admite o conluio 

Com os beijos molhados 

A rendição do plexo desejoso 

Seu sol deixam os seios ouriçados

Com volúpia saltam do bojo 

Depois que os botões abrem segundo ato

A blusa escancara um sorriso 

Na brasileira alegria do desejo 

Pernas morenas contraem e descontraem 

Expostas a um prazer iminente 

Amantes com deficiência deixam a cadeira 

Poesia com deficiência escrita no lençol 

Lira paulistana com paixão mineira 

Cadeira amiga é testemunha ocular 

Discreta segura nossas roupas 

*

SÉRGIO CUMINO 

POESIA COM DEFICIÊNCIA 

 

domingo, 23 de agosto de 2026

SOMBRAS DO PARLAMENTO


  SOMBRAS DO PARLAMENTO 

O lado sombrio 

Corrompe conforme o medo

Adultera os limites 

A náusea dos parâmetros 

O receio sôfrego excita 

Reduz no caminho ardil

*

A carne se torna sebo

A crisma do oculto 

Valor não persiste 

Aquilina o novo servil 

Que enreda o passo nulo

À oportunidade que tramita 

*

A margem habita seu covil

Distante da casualidade 

Olha o nariz desde cedo 

Passa a ser o rancor e vulto 

Olfato do delito

Tudo que previste 

*

Na falsidade tornou astuto 

Caçador de vontade 

Não realiza, da pulos

Dentro dos esquemas 

Passou fuligem na saudade 

Furtam o próprio dogma

*

Os Ditames do sonho 

Tentam desviar da calamidade 

Alivia a coleira apertada 

Mas elencaram seus sócios 

Abre-se o culto do demônio 

Em nome do senhor 

*

A astúcia dos negócios 

É a paridade entre Deus e o diabo 

O fulgor da tentação 

Sob o templo um sem teto 

Encontra-se em Fausto 

Liberta o servo de Deus 

*

Com sombrio da gentileza 

E passa a ter aspecto 

Anula o eu pelo mim

E foge dos oceanos 

A defesa do olhar perdido 

O corvo que devora vísceras

*

As entranhas do bem aventurado

Ostenta ser desonesto 

Para iludir a região dos desejos 

Cria a resignação coletiva 

Tira o perfume do jardim 

Tal como o espírito republicano 

*

Alimenta corrente do subterrâneo 

Total desprezo ao entorno 

O método dos seus planos 

O espectro caminho do beco 

Não há palestra no papo reto 

Corrompe-se no pó, grupo e culto 

Aparelhado no conceito de Deus 

*

FRÊMITOS DO ILÊ-SÉRGIO CUMINO 

RAIO DE LUZ

RAIO DE LUZ 

Quantas noites veladas 

Junto ao parlamento das dúvidas 

A cada item uma moção 

As quais ecoam no pensamento 

Sem espaço as ternuras cálidas

 Da perspectiva eclode o lamento 

A cada negativa uma emoção 

O máximo alcançado 

Com a filosofia existencial 

Foi resignar a ilusão 

Enfraquecer algumas lástimas

Cheguei ao ponto zero 

Sem ao menos saber qual o um

Porém as reminiscências dos sonhos 

Esses me negava a sepulta-las

Certo que a esperança 

É vítima de trapaças 

Tirou-me da fila do pão 

Evito os sorrisos das belas

E os não tão belas, fogem

Entre eu e o prazer, há um vulto

Onde a poesia é o diário do naufrago 

Escrito num quarto sem janelas 

Efeito da resposta do abismo 

Desse atoleiro sem fim 

Qual será o deleite oculto?

Nas preces clamo com ardor 

Tenho o coração regenerado 

No plano físico e metafísico 

Platão me chamou para caverna 

No entanto com sequelas 

A jornada do herói chega ao confim?

Por tanto esperar o tal destino 

Porém secam as flores do jardim 

Há incógnitas quando o tempo urge 

Leva a condição extrema 

Falta-me credor as somas do amor

O peito sente a falta do ar

E as demais que desatino

Sabe-se lá o que pode atrelar

A um artista de sessenta invernos

Esgota-se a esperança e astúcia 

Carrega o estigma do ócio 

Espírito apura o dilema

E toda negação que ele induz

Sou aquele que todos querem 

No entanto ninguém quer pagar 

Rogo a Ayrá um raio de luz

*

                           FRÊMITOS DO ILÊ                             SÉRGIO CUMINO