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sábado, 1 de agosto de 2026

A FILHA DO PASTOR

A FILHA DO PASTOR 

 A sombra cruel faz a luz absurdo 

Atordoada noite que não dorme

Delirava a filha do reverendo 

Intuitivo aponta, a fé desertou

Jogada ao abismo do sono profundo 

A distanciou do etéreo 

Foi quando colocou os pés no chão 

Percebeu, criaram uma ilusão 

E ela o rebento da família perfeita

A devoção de foro íntimo 

Quanto, camisola suada

Pelas as agruras do desespero 

Pois então a fé é externo a vida 

O dilúvio de desilusão 

A pregação era um negócio 

E ela o prego que sustentou Cristo 

A agenda do pai, não era de pastor 

De fariseus e seus algozes políticos 

Onde provem a questão e seus múltiplos 

fez do farto café da manhã indigesto 

caminho terreno carente de sentidos 

Nas ações dominical ensinam :

As conjunturas da vida materialista 

Prudência e observação 

Inteligência, ética e retidão 

Muito menos polarização Divina

Não era temática feminina.

 

Quanto ao homem de bem?

 a colher de chá rodeando a xícara 

Esse a hipocrisia o retém 

E os tornam perigo coletivo

 oportuno a junção dos polos 

E o diabo contabiliza os lucros 

 Esfumaça a interesse obtuso 

O subgerente da enfadonha conexão

Subverte a especulação do saber

Eis a questão: O que somos nós?

Sobre ideais e respectivos caprichos

Lamentos e suas frustrações 

O objeto da fé, fez dela um meio

Faziam acredita que a vil cognição 

Era a Importunação das respostas 

Eis que surge o caminho da “salvação”

A palavra e seus dogmas 

Armada pelos artefatos do bem 

A agonia lenta e crescente 

Desvia qualquer atenção 

Faz o saber parecer engodo

Da vida que não existia 

E a vereda faz-se velha

Os músculos ficam sem o tônus 

Os apelos perdem os pelos 

A boca alguns dentes 

Afugenta a complexidade metafísica 

Fecha um mundo de possibilidades 

Das curiosidades ocultas 

Calcadas na insurgência do espírito 

Cultuar a morte é um desvio óbvio 

Para que não olhem para os vivos

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO  

sexta-feira, 31 de julho de 2026

BASTIDORES

BASTIDORES 

O teatro a metáfora da vida

Na esperança dos atos

Na simbologia das máscaras 

Prólogo, o drama e o epílogo 

Vivida na sabotagem do melodrama 

Num conto de clímax e apatia 

Na metamorfose Kafkiana  

Ser o melhor aos olhos das pessoas 

Ludibriando o veredito 

O lisonjeiro intelectual e artista 

Diametralmente o oposto 

A decapitação racional 

Cai as partes separadas no cesto 

As subjetividades se afoitam 

Como se os sentidos das coisas

Limitam-se a sorrisos que confortam

Posto a razão acima do limite 

O cinismo passa a ser corrosivo 

Os risos a impertinência dialética 

 obsessão frágil atrás da cortina da ilusão 

A sobriedade mora na coxia

Na companhia do crânio inanimado 

Que contracena com Hamlet 

A performance peculiar do bastidor

Habita seu jogo de sombras 

Longe dos holofotes da cena

O drama toma a alma

Com o algodão e o demaquilante 

O crânio de gesso, tem mais signos

Que as minhas reflexões engessada

A caveira inanimada

A mais sincera filha do molde

Porque do outro lado da porta 

Uma plateia escura de cadeira vazias

Adormecem até o próximo espetáculo 

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO  

quinta-feira, 30 de julho de 2026

RESSURREIÇÃO DO SUICIDA

 RESSURREIÇÃO DO SUICIDA 

João da Boa Morte 

Precisava se confessar 

E assim o fez

O sacramento escolhido 

Foi a uma pedra

Havia receio de absolvição de um padre 

Pior seria um crente de fundilho quente 

Derreter o gelo moribundo 

A pedra não, trás em si símbolos 

Afinal o suicídio já estava decidido 

A confissão era mero protocolo 

Do seu juízo final 

O rito não poderia ser bagunçado 

O que acabou se tornando 

O silêncio da pedra

Usurpou a paz celestial 

Memória da vida suicida 

Parece título de crônica popular 

O que desmonta todo pesar

A fatalidade já era íntima de velha ordem 

Somente o João que não se deu conta 

Não cabe mais apelo ao Divino 

A tempo que renunciara o espírito 

Mas já era morto antes disso

Foram tantas mortes 

que já tinha cemitério próprio 

Defunto traído, último saber ser morto 

Quase morre de desgosto 

Cortejou tanto a morte 

Contemplou sua dignidade 

Planejou as núpcias da fatalidade 

Absorto, descobre que é adúltera

Já o matara através de tantos 

Alguns ocultos, outros nas suas barbas

Sobre a alcunha de fases

Pensava ser agruras das incertezas 

Decisão pessoal , era novela pública 

E agora? A dúvida!

O que fazer com pensamento ?

 Deixa de ser intensão

Vira ironia de obituário 

Por uma nulidade existencial 

O suicídio de um cadáver vivo

Passa a ser um peso morto 

Desculpa o trocadilho 

A vida uma ironia efêmera 

Enquanto a morte é constante 

Agora o que fazer com conluio das partes 

E as cento e vinte laudas 

Da mais sincera condescendência

Inútil pensar em segundo plano 

Depois descobri que está nele

 O suicídio não está mais em questão 

O importante é encontrar a ressurreição.

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO