MANDIGA DO NEGO VELHO
Agradeço por sua devoção
Esse velho viveu de pé no chão
Obrigado do toco para sentar
Grato pela caneca de café
Deixe a borra que vou aproveitar
O fumo de corda para fumar
Brasa é o encantamento
e a fumaça faz a vida passar
Na nuvem branca revela
O que nem pode imaginar
E de lá tiro o que vem a pensar
A raiz de cada sentimento
O conselho é doutrinar o silencio
Maior sabedoria que vai precisar
Tudo que tenho a te acalmar
Que tipo de benzedura
Para criar novo movimento
Faço uso da arruda e guiné
Outra erva a receitar
Para buscar sua cura
Sou Joaquim, Benedito, e José.
Sou até Maria de Congo
Venho de angola, Ruanda,
Agora visito muitas roças
Caminho desde xambá
Assim aprendi com cada tombo
E as artimanhas de mojubá
Muita historia para contar
Outras marcas do quilombo
Com a covardia dos açoites
Conheci as ervas que tira dor
E os segredos de cada macaia
E as ladainhas para rezar
Mas minha maior sabedoria
Não esta na cantoria
Ou no enfeite de conga
Que da humildade vem o amor
E o mistério dos dias e noites
E o que a bananeira vem me falar
Saiba ver e verá
Em cada gesto deste velho
E cada ruga a te orientar
Atente o ouvido e entenderá
É meu filho antes de ouvir
Tem que aprender a escutar
Chega mais perto, pode ajoelhar.
Para sua soberba derramar
Porque maior mandiga
É o filho se declinar
Quando seu corpo se curva
Faz sua alma enxergar.
SÉRGIO CUMINO –
O POETA DE AYRÁ
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