BEIJO DA MÃE PRETA ESQUENTA
Na calçada sobre friagem,
A mulher beija seu filho,
No crepúsculo da garoa
Encolhidos na via
Exposto a todo perigo
Por vezes uma alma boa
Dispensa centavos na vasilha
Expõe a passarela da economia
Que há almas fora do trilho
Que a vida é desumana
Arestas da fôrma emergente
Dispensadas nas margens
Da avenida paulistana
Sem o que lhe estenda a mão
Sem registros nem passagem
No documento da história
Tristes sequelas da abolição
Mãe o encosta ao colo
O presente frágil, em meio
ao passeio que foi dos Barões
Senhores do café.
Cuja mãe e filho são colheita
Da injustiça dos porões
Que deram sangue ao solo
Vicissitudes aos brasões
Recebem séculos de atrasos
A eles restaram à fé
E uma mãe que muito ama
unidos pelo afeto
de futuro nublado
colados a inércia dos tijolos
sob a marquise e sem tetos
Solo de outrora dos casarões
Envolto no trapo sagrado
acalenta , entre os seios
protegendo dos passos
dos pés de sapatos lustrados
que olham o futuro de ações
sem vir o olhar fundo ,e triste,
sem vir mãe e filho pobre,
e o corpo protegido em sua coxa
que aquece o espírito da criança
numa luta contra a avenida úmida
sem os pés de ilustres vir que há
outros valores além da bolsa
expostos a garoa de São Paulo,
que inspirou corações ,
hoje penetram nos ossos frágeis
de alguém que não sonha
talvez, não aprenderá a sonhar.
Mãe preta se sente impotente,
Ambos com afeto ocupam o metro
de calçada que não te pertence
é símbolo sem saber se afirmar
No mais caro metro quadrado
que tenta esconder o olhar triste
do seu pequeno inocente,
SÉRGIO CUMINO - POETA DE AYRÁ