ESSE BLOG NÃO PERTENCE SÓ AO POETA, ELE É DE TODOS NÓS

sábado, 1 de agosto de 2026

PORQUE ESCREVO

PORQUE ESCREVO 

 O desabafo começa salivando 

Sobre a folha branca do papel 

Havendo um atrito da caneta

Às incongruências do conflito 

 escrever como salto de rapel 

É o engodo da minha vaidade 

Fará heroico o ímpio 

Para que suas dores passem?

Sei que insanos desabafos

Secam as tintas do tinteiro 

O apelo havia excedido 

A lisura do bom senso 

Perdidos a saliva, o sopro e o bafo

Pelo menos luz acendeu 

Desespero da criança na tenra idade

O sentido da vida é saber irracional 

Racional a vida é um mal

A renuncia da razão 

Complexo como estômago vazio 

E todas as fomes do elenco 

Nas esgrimas das palavras 

Primeiras que esvaíram sem muito explicar

Foram as soluções fáceis 

Que foram negado versos

De consolos de falsas compaixão 

Porém de resto um amontoado 

De escritos como castelo de cartas 

Reflexão em prosas poetadas 

Num inverno reverso 

O leitor em desvantagem 

Como se quisesse levar alguma 

muitos creem ser verborrágico 

Inspirado em Heiner Müller

 Antes fosse. Se quer espero Godo 

Se algo me leva aos dois expoentes 

Reside a eloquente palavra silêncio 

Por onde vocifera o poeta 

Aliado da minha dor

Escrever para não enlouquecer 

O mediador na roda do caos 

Ressignifica o nada

Nessas corredeiras Vans 

Um confessionário de resenhas 

Hora me sinto Artaud 

Assassinando Deus 

Outrora mergulho em águas salubas 

A procura do conselho de Nanã 

Tentando me convencer não ser tolo 

Ser um Parsifal a procura do Graal

 E que de fato existo

Antes que Eu desista de Mim 

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO  

A FILHA DO PASTOR


A FILHA DO PASTOR 

 A sombra cruel faz a luz absurda

Atordoada noite que não dorme

Delirava a filha do reverendo 

Intuitivo aponta, a fé desertou

Jogada ao abismo do sono profundo 

A distanciou do etéreo 

Foi quando colocou os pés no chão 

Percebeu, criaram uma ilusão 

E ela o rebento da família perfeita

A devoção de foro íntimo 

Quanto, camisola suada

Pelas as agruras do desespero 

Pois então a fé é externo a vida 

O dilúvio de desilusão 

A pregação era um negócio 

E ela o prego que sustentou Cristo 

A agenda do pai, não era de pastor 

De fariseus e seus algozes políticos 

Onde provem a questão e seus múltiplos 

fez do farto café da manhã indigesto 

caminho terreno carente de sentidos 

Nas ações dominical ensinam :

As conjunturas da vida materialista 

Prudência e observação 

Inteligência, ética e retidão 

Muito menos polarização Divina

Não era temática feminina.

 

Quanto ao homem de bem?

 a colher de chá rodeando a xícara 

Esse a hipocrisia o retém 

E os tornam perigo coletivo

 oportuno a junção dos polos 

E o diabo contabiliza os lucros 

 Esfumaça a interesse obtuso 

O subgerente da enfadonha conexão

Subverte a especulação do saber

Eis a questão: O que somos nós?

Sobre ideais e respectivos caprichos

Lamentos e suas frustrações 

O objeto da fé, fez dela um meio

Faziam acredita que a vil cognição 

Era a Importunação das respostas 

Eis que surge o caminho da “salvação”

A palavra e seus dogmas 

Armada pelos artefatos do bem 

A agonia lenta e crescente 

Desvia qualquer atenção 

Faz o saber parecer engodo

Da vida que não existia 

E a vereda faz-se velha

Os músculos ficam sem o tônus 

Os apelos perdem os pelos 

A boca alguns dentes 

Afugenta a complexidade metafísica 

Fecha um mundo de possibilidades 

Das curiosidades ocultas 

Calcadas na insurgência do espírito 

Cultuar a morte é um desvio óbvio 

Para que não olhem para os vivos

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO  

sexta-feira, 31 de julho de 2026

BASTIDORES

BASTIDORES 

O teatro a metáfora da vida

Na esperança dos atos

Na simbologia das máscaras 

Prólogo, o drama e o epílogo 

Vivida na sabotagem do melodrama 

Num conto de clímax e apatia 

Na metamorfose Kafkiana  

Ser o melhor aos olhos das pessoas 

Ludibriando o veredito 

O lisonjeiro intelectual e artista 

Diametralmente o oposto 

A decapitação racional 

Cai as partes separadas no cesto 

As subjetividades se afoitam 

Como se os sentidos das coisas

Limitam-se a sorrisos que confortam

Posto a razão acima do limite 

O cinismo passa a ser corrosivo 

Os risos a impertinência dialética 

 obsessão frágil atrás da cortina da ilusão 

A sobriedade mora na coxia

Na companhia do crânio inanimado 

Que contracena com Hamlet 

A performance peculiar do bastidor

Habita seu jogo de sombras 

Longe dos holofotes da cena

O drama toma a alma

Com o algodão e o demaquilante 

O crânio de gesso, tem mais signos

Que as minhas reflexões engessada

A caveira inanimada

A mais sincera filha do molde

Porque do outro lado da porta 

Uma plateia escura de cadeira vazias

Adormecem até o próximo espetáculo 

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO  

quinta-feira, 30 de julho de 2026

RESSURREIÇÃO DO SUICIDA

 RESSURREIÇÃO DO SUICIDA 

João da Boa Morte 

Precisava se confessar 

E assim o fez

O sacramento escolhido 

Foi a uma pedra

Havia receio de absolvição de um padre 

Pior seria um crente de fundilho quente 

Derreter o gelo moribundo 

A pedra não, trás em si símbolos 

Afinal o suicídio já estava decidido 

A confissão era mero protocolo 

Do seu juízo final 

O rito não poderia ser bagunçado 

O que acabou se tornando 

O silêncio da pedra

Usurpou a paz celestial 

Memória da vida suicida 

Parece título de crônica popular 

O que desmonta todo pesar

A fatalidade já era íntima de velha ordem 

Somente o João que não se deu conta 

Não cabe mais apelo ao Divino 

A tempo que renunciara o espírito 

Mas já era morto antes disso

Foram tantas mortes 

que já tinha cemitério próprio 

Defunto traído, último saber ser morto 

Quase morre de desgosto 

Cortejou tanto a morte 

Contemplou sua dignidade 

Planejou as núpcias da fatalidade 

Absorto, descobre que é adúltera

Já o matara através de tantos 

Alguns ocultos, outros nas suas barbas

Sobre a alcunha de fases

Pensava ser agruras das incertezas 

Decisão pessoal , era novela pública 

E agora? A dúvida!

O que fazer com pensamento ?

 Deixa de ser intensão

Vira ironia de obituário 

Por uma nulidade existencial 

O suicídio de um cadáver vivo

Passa a ser um peso morto 

Desculpa o trocadilho 

A vida uma ironia efêmera 

Enquanto a morte é constante 

Agora o que fazer com conluio das partes 

E as cento e vinte laudas 

Da mais sincera condescendência

Inútil pensar em segundo plano 

Depois descobri que está nele

 O suicídio não está mais em questão 

O importante é encontrar a ressurreição.

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

ORÁCULO DE TOLO

ORÁCULO DE TOLO

Oráculo o sufrágio da ilusão 

E seus adjetivos da perversão

Tudo “ão” para dizer o mínimo 

No campo das hipóteses 

Internaliza dogmas 

Cancela o arbítrio 

Cria receios a imaginação 

Subverte os escritos 

Conforme as vaidades 

Conspiração de teoria 

Diria o cético 

A palavra puxa a grade 

E o incesto faz parte 

Diz um mago de Sófocles 

Faz – se do eterno 

Juízo e sacrilégio 

Filho mata o pai

Conforme convém 

A psiquê da análise 

Traveste o mito como verdade 

E o peso das burras

Tem oráculo de estimação 

Viola os arquétipos 

A idolatria de Totens

Conforme necessidade do cliente 

A vida biológica se renova 

Já sincronicidade metafísica 

Sempre haverá uma lista 

Na jornada do herói

Liberta o Anti-Edipo 

E as unhas hão de roer 

No que diz a quiromancia

Para Dizer o que se quer

Não passa de dopings 

Pós idade da razão 

Queimando no inferno 

Cria Labaredas do medo

Para vender salvação 

Tudo questão de interpretação 

Que embuste o argumento 

No mercado mágico 

O rei é ilusionista 

Que escreve nas estrelas

 força criativa que conecta

Que a urbanidade não enxerga 

O mistério excita 

Como amor proibido 

Chique ser alquimista 

Para as bruxas de shopping 

Como se o destino desse spoiler 

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO 

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

A LOUCURA NOS CORPOS

A LOUCURA NOS CORPOS 

 Foge dos conformes 

A intermitência das células 

São pérolas escondidas

 burburinho das moléculas 

E a geladeira dos ossos 

Eterno pedido de escusas 

Nega aquilo que sabe

Treme que o caldo entorne 

Crueldade vibra a vida

Eloquência é a subserviência 

Abstração no compasso 

E seus conflitos paradoxos

Faz erudita a barbárie 

O alongamento preenche o espaço 

A ganância permitirá 

A regência dos travados 

Como insurgência corporal 

Que abocanha as palavras 

Transeuntes é o corpo de baile 

Para o passeio das falas

De expressão muda 

Pelos palcos das calçadas 

A fome vidente come com olhos

Deseja com os poros

Anatomia de terra arrasada 

De palcos apertados 

E liberdade exprimida 

Que reprime as vísceras 

Que discursa em blocos 

Desnorteia a calma 

Confunde a alma 

Nos pontos de vista 

A dó é a menor 

Das compaixões e dialetos

Anterior a intuição 

E a fome de ação presente 

Dos corpos objetos 

A dança é fala dos ritos 

Espetáculo da catarse 

O movimento é o conflito 

E a loucura do tônus 

Subverte as marchas marcadas

Dialogando com a metafísica 

Desorienta as estruturas 

Com a oratória dos reflexos 

Quando o domínio do império 

Escreve por chibata 

Nas peles pretas 

Quelóide em blocos de notas

Assinatura do baronato 

*

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO  REVERSO  

segunda-feira, 27 de julho de 2026

ESGRIMA O ETERNO

   ESGRIMA O ETERNO.

Oh meu pai!

Abra sete ondas

Proteja -me a beira mar

Rompa duras matas

Dessa floresta densa 

Com sua espada flamejante 

Feita em forja sagrada 

Para esgrimar a paz

Na arte da guerra 

Malha e molda insígnias 

Nas ilíadas da bigorna 

os paramentos arquétipos 

É mitologia criando forma

Torna-me locomotiva 

Que o fogo movimenta 

Para ir além dos trilhos 

Com símbolos mariwo 

Dendê que aquece o guerreiro 

Vivência resistência 

Contra supremacia vil

Os caminhos que transforma 

Em horizonte que sustenta 

Levanta quando cai 

A autoestima e seu brio 

trem que adentra montanhas 

Com vigor ancestral 

Rebate intolerância senil 

Ogunhê meu pai!

*

 SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO 

CATARSE DOS VERSOS


CATARSE DOS VERSOS 

Deitou -se de bruços 

A um quarto de silêncio 

Seus desejos em sussurros

A trégua a entrega absoluta 

Com sua calcinha de rendas

E camiseta de dormir 

Lia poesias de amor

Que compartilha intimidade 

Dialoga com seus sonhos 

Na terna cúmplice noite

No avante das horas 

Veículos se recolhiam ao repouso 

A lua se mostrava sem pedir licença

A flechava em diagonal 

Sem incomodar a leitura 

O corpo largado na cama

Revelava suas íntimas rimas 

A brisa suave e melodiosa 

Olhos divididos entre versos 

E devaneios da mente

Buscando da leitura referências 

Como se decifrasse enigmas 

Sozinha na noite 

E divinamente acompanhada

Personalizado seus mistérios 

Respirou inspirada 

Elencando seus afetos 

Cobre-se com frases mágicas 

Revela o coração nas estrofes 

Que pausadamente a lia

Passa de leitora a poesia 

A catarse da noite 

Fechou o livro e os olhos 

E o beijou com queixo 

Sabia que dormiria ali dentro 

Quão divino foi sua arte

Adormece com lingerie nos joelhos 

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO 

MEMÓRIAS E MANHÃS FRIAS


MEMÓRIAS E MANHÃS FRIAS

 A poesia assume o rigor

Do enfrentamento de si

Deu voz a incoerência 

Sem tempo de supor

Para cativar as ilusões 

Faz-se ficcional a memória 

Incógnitas dos mistérios 

E suporta ela indo embora 

Imagem criada na maresia 

É ferro que o salitre corroeu

Um naufrago a beira mar

A poucos quilômetros 

Cargueiros enfileirados ao porto

E ele na praia sem ter como aportar 

Entre espumas que molham canelas

Na solidão da manhã fria

Agonia em existência boqueirão 

Suportando as brisas matutinas

Que quebram ondas de solidão 

O sol se lança fraco 

Com impulso do canto do forte

Coleciona conchas como registro cético 

Marcando cada reflexão 

E não reluz nenhum mérito 

Volta com vazio para casa

Separado, história do egoísmo tosco 

Na travessia da avenida da praia 

Sente o peso da idade

Quantos passos de solidão 

Que atravessou decorrer dos anos 

Na companhia dos conflitos internos 

Ornados com pelos brancos no rosto 

Não Significou a saudade 

A contragosto a depressão do inverno 

A turbulência desse mar revolto 

SÉRGIO CUMINO 

INVERNO REVERSO