RESSURREIÇÃO DO SUICIDA
João da Boa Morte
Precisava se confessar
E assim o fez
O sacramento escolhido
Foi a uma pedra
Havia receio de absolvição de um padre
Pior seria um crente de fundilho quente
Derreter o gelo moribundo
A pedra não, trás em si símbolos
Afinal o suicídio já estava decidido
A confissão era mero protocolo
Do seu juízo final
O rito não poderia ser bagunçado
O que acabou se tornando
O silêncio da pedra
Usurpou a paz celestial
Memória da vida suicida
Parece título de crônica popular
O que desmonta todo pesar
A fatalidade já era íntima de velha ordem
Somente o João que não se deu conta
Não cabe mais apelo ao Divino
A tempo que renunciara o espírito
Mas já era morto antes disso
Foram tantas mortes
que já tinha cemitério próprio
Defunto traído, último saber ser morto
Quase morre de desgosto
Cortejou tanto a morte
Contemplou sua dignidade
Planejou as núpcias da fatalidade
Absorto, descobre que é adúltera
Já o matara através de tantos
Alguns ocultos, outros nas suas barbas
Sobre a alcunha de fases
Pensava ser agruras das incertezas
Decisão pessoal , era novela pública
E agora? A dúvida!
O que fazer com pensamento ?
Deixa de ser intensão
Vira ironia de obituário
Por uma nulidade existencial
O suicídio de um cadáver vivo
Passa a ser um peso morto
Desculpa o trocadilho
A vida uma ironia efêmera
Enquanto a morte é constante
Agora o que fazer com conluio das partes
E as cento e vinte laudas
Da mais sincera condescendência
Inútil pensar em segundo plano
Depois descobri que está nele
O suicídio não está mais em questão
O importante é encontrar a ressurreição.
SÉRGIO CUMINO
INVERNO REVERSO








