PLATAFORMA DO PESADELO
Barrado na esteira da alfândega
Apatia da solidão sepulcral
Conforme os preâmbulos divino
Da terra não se leva nada
Um paradoxo da pós vida
Justo eu que nada deixo
Se quer um legado fica
lembranças e 0a biblioteca roubadas
Se nem velório teve
Nem vela, nem foro, nem cânticos
Nem me vem com ironia
Colheu o que plantou.
Parado por excesso de carga
O auto falante anuncia
Um minuto de silêncio
Primeiro vagão reservado
É o embarque das crianças de Gaza
como se a gravidade despencasse
Soterra as almas do ambiente
O dilema elenca agora uma questão
Quão pesado é o vazio
organizei a bagagem conforme os ditames
Do nada ao nada
Confirmado a legalidade do fato
que nem Deus carrego
Pela obviedade de ser onipresente
Até meus malfeitos foram remoídos
pelo remorso e culpa, reduzidos a pó
se foi com o vento da redenção
No período de reclusão
Uma triagem terrena completa
Pois então, sou eu a bagagem
Recrudescia se iria de fato seguir
Supus que o ministério do além
Que mandou um burocrata divino
Nas leis do direito oculto
Haveria possibilidade de recurso
Será um anjo divergente
Pôs-me numa pescaria probatória
Prostrado e humilhado
Testemunho ocular no embarque de crianças
Mortas pelo sionismo infame
Na plataforma da eternidade
Embaçado que pouco enxergava
De certo referente a idade
Contraria a juventude iluminada
A morte não destrói a vida
Mas a vida apresenta controvérsia
temente a Cristo com orgulho
Será que aí que mora toda carga
O inverso seria amar em Cristo
A doutrina endurece os sentidos
Pesado a rotina das regras
Será que não é possível - dizia eu
Despi–me desse peso, me desfiz da ideia
Há peso velado ao tabu da nudez
Talvez seja um sectarismo ortodoxo
Com os distúrbios da intuição
A retórica um oceano sem fim
Já estou de passagem pela passagem
E a situação de mau a pior
Não sabia quanto tempo passou
Nessa condição de imigrante indesejado
Ou reflexo da noite mau dormida
Mas o que importa a alguém em vida
Tanto tempo se desperdiçou
Constrangida fatalidade
O abateu com um insight
Havia os pesares e seus labores
Será que essa é a plataforma do pesadelo
Forcei-me acordar, de súbito
Lotado bagageiro dos pensamentos
Ouvi os pêsames da cama
Pelo esforço para que o olho abrisse
Era porta emperrada
E a cabeça carrega uma caçamba
Os entulhos das elucubrações
Excesso é o peso da consciência
A madrugada cochilava
Eu me postei de guarda
*
SÉRGIO CUMINO
INVERNO REVERSO
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