BOTAS DA REDENÇÃO
O que lembra é fato
Não era assim com seu avô
Lança seu olhar ao céu
Para onde escapa a sorte
Gole infame, as entranhas queimou
Antes um homem hoje rato
*
Condenado, mistura-se álcool e fel
O desânimo aquece no Corote
Já se desculpa pelo desacato
Mas é lástima o que se tornou
O triste olhar no infinito
Não disse nada para o nada
*
Era plácido o rancor
Indaga o pensamento atrevido
Com escrúpulo embriagado
o azul do meio dia trovejou
Nuvens brandas esvaíram
Seria sua sentença de morte?
*
Sabia que tal desfecho falta pouco
Não tinha sequer magoa
Mesmo depois de tudo perdido
Teria direito ao desabafo
Mas o trovão o calou
A batida de tambor no couro do céu
*
Será que ficou louco
O estrondo o tocou forte
o ronco falara contigo
É o delírio do tormento
De pensar o corpo arrepiou
Precisava de alguém pra falar
*
Os pelos dançaram com vento
Estava certo ser o veredito
Uma palavra que o conforte
Lembrou que disse mãe Rosa de Oyá
“ o trovão é a voz da justiça “
Chegaria o bater das botas
*
Sabia que para além leva a fé
A procurou para última consulta
Pela agonia ela perguntou a Ifá
Surpreende o que divindade falou
A tempo que já estava de pé
Mas decidiu alterar as rotas
*
A resignação mudou a conduta
Que fez do trovão o recurso de Xangô
E as brancas nuvens dissipou
Pela redenção sentou Oxalá
Não bateu, aposentou velhas botas
Novos passos para novas portas
SÉRGIO CUMINO
LUME LUSCO-FUSCO

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